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Ato inter-religioso reúne católicos e matriz africana em celebração a São Jorge

Evento em Porto Alegre reúne missas, rituais de matriz africana e promove união entre diferentes crenças em torno de São Jorge.

23/04/2026 às 00:10
Por: Redação

No dia 23 de abril, a capital gaúcha Porto Alegre será palco, pelo terceiro ano consecutivo, de uma celebração que une diferentes tradições religiosas em homenagem a São Jorge. O evento está programado para começar às 8h no bairro Partenon, reunindo manifestações de fé que integram tanto católicos quanto seguidores de religiões de matriz africana.

 

Enquanto missas ocorrem no interior da Igreja de São Jorge, no lado externo do templo, fiéis recebem bênçãos de representantes da Família Yecari, ligada ao Terreiro de Batuque Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá. Essa entidade, há mais de duas décadas, atua em ações comunitárias na zona norte de Porto Alegre, consolidando uma presença marcante entre os praticantes das religiões de matriz africana.

 

No Brasil, São Jorge é uma figura de grande devoção na Igreja Católica e, sob o nome de Ogum, também nas religiões afro-brasileiras. Para os devotos, ele simboliza coragem e força. A comemoração une diferentes credos e mobiliza milhares de fiéis em todo o território nacional no dia dedicado ao santo, tanto no catolicismo quanto nas manifestações religiosas de origem africana.

 

Roseli Debem Sommer, membro da Família Yecari, compartilha sua trajetória de fé. Aos 47 anos, ela relata ter nascido em família católica, sido batizada, recebido primeira comunhão, crisma e se casado na Igreja Católica. A mudança de religião ocorreu aos 19 anos, mas a imagem de São Jorge sempre esteve presente como inspiração de força nas dificuldades e batalhas.

 

“Minha falecida mãe sempre falava: te agarra no guerreiro, pede com bastante fé e com bastante coração, que tu pode ter certeza que ele vai te ouvir. São as palavras que sempre uso: que o grande guerreiro esteja sempre à frente das nossas batalhas”, disse, em entrevista.

 

Roseli também comentou que, além da capital, atos inter-religiosos estão previstos para ocorrer em Rio Pardo e Santa Maria, ampliando a atuação da Família Yecari e levando suas práticas para outras regiões, o que considera de grande relevância e satisfação para o grupo.

 

Segundo ela, “ali a gente vê manifestações de fé, da pessoa que está indo na Igreja católica para sua homenagem a São Jorge, e se depara com o terreiro de matriz africana também dando a bênção. São milhares de pessoas que circulam no local durante o dia.”

 

Lideranças unem esforços em celebração simbólica

 

A terceira edição do ato inter-religioso tem à frente o presidente da Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá, Pai Ricardo de Oxum, junto à Família Yecari, em colaboração com o padre Sérgio Belmonte, pároco da Igreja de São Jorge. O sacerdote do Terreiro de Batuque ressalta que a celebração representa resistência histórica e a luta da ancestralidade, que anteriormente só encontrava espaço para expressar sua fé por meio do sincretismo com imagens católicas.

 

“Só conseguiam professar a fé através das imagens da igreja católica [sincretismo]. Então, com São Jorge e todas as imagens dos santos, a gente tenta passar o simbolismo da matriz africana. São Jorge, Ogum e Nossa Senhora dos Navegantes, Iemanjá, são os santos mais populares do Brasil”, afirmou Pai Ricardo.

 

O objetivo central do ato é convidar a comunidade de matriz africana e simpatizantes a compartilhar com católicos um dia de conexão espiritual, promovendo integração entre crenças e respeito mútuo às tradições religiosas distintas. Pai Ricardo observa que o Estado do Rio Grande do Sul apresentou, no último censo, o maior número de praticantes de religiões de matriz africana no país.

 

Ele destaca ainda que o estado historicamente apresenta forte racismo e que, entre católicos, havia uma percepção distorcida sobre as religiões afro-brasileiras. “A família Yecari vem, ao longo de três anos, tentando quebrar este bloqueio e mostrar que as duas festas podem caminhar juntas. São Jorge e Ogum são louvados mundialmente e faz parte da tradição dos dois caminharem juntos”, afirmou.

 

A programação do evento será aberta com o tradicional banho de cheiro promovido pela Família Yecari. Ao longo do dia, as atividades seguem até 18h30, encerrando com uma procissão que contorna a Igreja. Durante o ato, será realizada a lavagem das escadarias da Paróquia São Jorge, em um ritual simbólico destinado à purificação e à renovação das energias do local.

 

Batuque: tradição afro-gaúcha em destaque

 

O Batuque é uma religião de matriz africana praticada predominantemente no Rio Grande do Sul, com foco no culto aos orixás Oxalá, Bará, Ogum, Iansã, Xangô, Oba, Odé/Otim, Ossanha, Xapanã, Oxum e Iemanjá. Suas origens remontam a povos vindos da Guiné, Benin e Nigéria.

 

A Família Yecari reúne, atualmente, mais de 50 mil membros entre Brasil e América Latina. O Batuque possui características próprias e não se autodefine como umbanda ou candomblé, constituindo uma identidade religiosa específica dentro das tradições afro-brasileiras.

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