LogoVárzea Grande Noticias

Brasil negocia voo direto para Senegal para impulsionar turismo e comércio

Governo brasileiro busca reduzir tempo de viagem aérea entre Brasil e Senegal, fortalecendo laços econômicos e diplomáticos.

22/04/2026 às 14:16
Por: Redação

O governo brasileiro está empenhado em reduzir o tempo de viagem aérea entre o Brasil e Dacar, capital do Senegal, localizada na costa oeste africana. A expectativa é que a medida traga benefícios para o turismo e o comércio entre os dois países, além de impactar positivamente as nações vizinhas.

 

No cenário atual, brasileiros e senegaleses não dispõem de voos diretos entre seus países. Em algumas situações, é necessário realizar conexões em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, antes de chegar a Dacar, o que aumenta significativamente o tempo total do trajeto. Outras alternativas de conexão envolvem hubs aéreos em aeroportos europeus ou em cidades africanas afastadas da América do Sul.

 

A distância em linha reta entre Natal, no estado do Rio Grande do Norte, e o Senegal é de 2.900 quilômetros. Para comparação, a distância de Natal até Lisboa corresponde a quase o dobro desse percurso, e para Dubai, a viagem é quase quatro vezes mais longa.

 

A embaixadora do Brasil no Senegal, Daniella Xavier, informou à Agência Brasil sobre o empenho do país para diminuir a duração do voo até o Senegal.

 

“Temos que continuar a trabalhar nesse sentido, pois não é lógico que tenhamos que ir à Europa para vencer menos de 3 mil km! Imaginem a redução dos tempos de voo e nos custos também em benefício dos demais países da África Ocidental, da América Latina e do Caribe”, disse.


 

Daniella Xavier esteve presente no Fórum Internacional de Dacar sobre a Paz e Segurança na África, realizado em Dacar, que conta com cerca de 4 milhões de habitantes, entre os dias 20 e 21.

 

Desafios para ampliar conexões aéreas e estimular negócios

 

Segundo a diplomata, é necessário romper o que chamou de ciclo prejudicial para o desenvolvimento comercial e turístico: a falta de escalas impede a criação de novas conexões aéreas, enquanto a escassez dessas conexões limita o crescimento do setor.

 

Daniella Xavier relatou que esteve em reunião com o ministro das Infraestruturas e dos Transportes do Senegal, Yankhoba Diémé, além de representantes da companhia aérea estatal Air Senegal.

 

Ela ressaltou a importância de promover acordos entre companhias aéreas brasileiras, que são todas privadas, e a estatal africana Air Senegal, ou até mesmo com empresas de outros países do continente, como Marrocos, Etiópia e Turquia. O objetivo é fomentar parcerias de codeshare, sistema em que as empresas comercializam passagens para os voos umas das outras, ampliando as opções para os passageiros.

 

Histórico das relações Brasil-Senegal

 

A embaixadora destacou a qualidade da relação diplomática entre Brasil e Senegal, lembrando que o país africano conquistou sua independência da França no início dos anos 1960. Ela enfatizou que ambos compartilham laços históricos profundos, cujas raízes estão associadas ao tráfico de pessoas escravizadas. A Ilha de Gorée, situada no Senegal, foi um dos pontos de embarque de africanos enviados para as Américas.

 

A embaixada brasileira foi estabelecida em Dacar em 1961. Em 1963, houve a reciprocidade com a instalação da representação diplomática senegalesa em Brasília, que atualmente é a única do Senegal na América do Sul.

 

Comércio em expansão e oportunidades de investimento

 

Em 2025, o volume comercial entre Brasil e Senegal atingiu 386,1 milhões de dólares, sendo que o saldo favorável ao Brasil chegou a 370,8 milhões de dólares, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Esses números indicam que o Brasil exporta muito mais para o Senegal do que importa daquele país.

 

“O Senegal ainda exporta pouco para o Brasil. Poderia, por exemplo, investir na exportação de amendoim e derivados das flores do nenúfar [lírios-d’água], como produtos gourmet, assim como tecidos, produtos artesanais, entre outros”, avalia a embaixadora.


 

Segundo Daniella Xavier, a expectativa é de crescimento nas transações comerciais bilaterais, e há esforços para ampliar investimentos. No ano anterior, uma missão com 50 empresários brasileiros visitou o Senegal em busca de novas oportunidades.

 

Nova indústria agrícola e transferência de tecnologia

 

Entre os investimentos realizados, a embaixadora citou o anúncio feito em outubro do ano anterior sobre a instalação da primeira indústria de genética agrícola no Senegal, com meta de produzir 30 milhões de ovos e 400 mil aves reprodutoras. O investimento inicial é de 20 milhões de dólares.

 

A iniciativa resulta de uma parceria entre a empresa brasileira West Aves e parceiros africanos. A previsão é gerar 300 empregos diretos e mil indiretos, além de promover transferência de tecnologia ao Senegal.

 

“Caso bem sucedido, o projeto poderá permitir a autossuficiência total do país na produção de aves e a redução de 20% de seus custos para o consumidor final”, sustenta.


 

Há ainda negociações em andamento para transferir ao Senegal tecnologias brasileiras voltadas à agropecuária, implementação de programas de merenda escolar e cooperação na área de defesa.

 

Alinhamento político e atuação em organismos internacionais

 

Para a diplomata brasileira, houve intensificação nos laços entre os dois países. Ela argumenta que, diante do contexto internacional, ampliar a coordenação política entre nações com posições multilaterais similares e buscar alternativas comerciais tornou-se essencial.

 

No campo do multilateralismo, uma das pautas em comum mais relevantes é a defesa de mudanças nos organismos internacionais, como o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Tanto o Brasil quanto países africanos reivindicam há anos a reforma do conselho.

 

Atualmente, apenas cinco países têm assento permanente e direito de veto no Conselho de Segurança da ONU: Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França. Nenhum país da América do Sul ou do continente africano integra esse grupo. Entre as atribuições do conselho estão a imposição de sanções internacionais e a autorização de intervenções militares.

 

Senegal destaca papel na promoção da paz na África

 

Durante o Fórum Internacional de Dacar sobre a Paz e Segurança na África, a embaixadora do Senegal no Brasil, Marie Gnama Bassene, ressaltou que o Senegal desempenha função relevante na construção de confiança, no fortalecimento da cooperação e na prevenção de conflitos por meio do diálogo, sempre com o propósito de promover e proteger a paz tanto em nível regional quanto continental.

 

Marie Gnama Bassene lembrou que o Senegal possui longa tradição de participação efetiva em operações de paz da ONU e da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), organização composta por 12 países. Ela fez um paralelo entre o papel do Senegal e a tradição pacífica do Brasil em suas relações com os países vizinhos.

 

“Ao observar a situação do Brasil e suas relações com seus vizinhos na América do Sul, não posso deixar de perceber muitas semelhanças com o Senegal”, disse à Agência Brasil.


 

Ela acrescentou:

 

“Nossos dois países compartilham o mesmo compromisso com o multilateralismo, a diplomacia, a paz e a segurança, bem como a prevenção e a resolução pacífica de conflitos por meio do diálogo e da consulta”, completou.


 

O Senegal assumirá a presidência da Comissão da Cedeao no período de 2026 a 2030, órgão executivo da comunidade. O país também faz parte da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), uma aliança que reúne mais de 20 países, em sua maioria africanos, com o objetivo de manter o sul do Oceano Atlântico livre de conflitos armados e tensões geopolíticas.

 

Recentemente, o Brasil assumiu a liderança do Zopacas em evento realizado no Rio de Janeiro.

 

De acordo com a embaixadora senegalesa, a parceria entre Brasil e Senegal é marcada por quase 65 anos de relações diplomáticas, caracterizando-se como forte, estável e duradoura, com visões convergentes sobre a maior parte das questões internacionais.

 

Contribuição brasileira para a paz africana

 

Apesar de o evento ter como foco a África, o fórum contou com a participação de chefes de Estado, ministros e diplomatas de 38 países, incluindo representantes de 18 dos 54 países africanos.

 

Ao final do encontro, o ministro da Integração Africana, dos Negócios Estrangeiros e dos Senegaleses no Exterior, Cheikh Niang, foi questionada sobre a possibilidade de o Brasil, país com forte herança africana, contribuir para a segurança e a paz no continente africano.

 

“Acho que o simples fato de participar de uma discussão, apresentar ideias e fazer propostas já é útil”, respondeu.


 

Cheikh Niang afirmou ainda:

 

“Portanto, desse ponto de vista, a participação não só é desejada, como também é, para nós, de grande utilidade para a qualidade do trabalho que realizamos”, completou o ministro.


© Copyright 2025 - Várzea Grande Noticias - Todos os direitos reservados